Domingo, 25 de Fevereiro de 2007

Reportagem


Miguel Torga: Um poeta de um "Reino Maravilhoso" sem fronteiras


Parte I - A Terra Natal e a Infância

O "Reino Maravilhoso", S. Martinho de Anta.

O nascimento e a infância de Adolfo Correia da Rocha

A frequência do Seminário de Lamego

A condição de criado de servir na cidade do Porto

A emigração para o Brasil

 

 


Parte II - Da emigração no Brasil às primeiras publicações


O Brasil

O regresso à pátria

A Universidade de Coimbra

Os grupos literários - Presença, Sinal, Manifesto

Os primeiros livros




 Parte III - Do nascimentode Miguel Torga à morte da mãe





Parte IV - O regresso definitivo ao "Reino Maravilhoso"

 





Bibliografia



     “Entrevista. Uma economia de palavras”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias (01-02-1995) p. 17-18.

“O segundo cavaquinho de Miguel Torga”, in Capa e Batina, 25 (Maio-Junho 1969,) p. 7.

“Prémio Internacional de Poesia para Miguel Torga”, in O Primeiro de Janeiro (08-09-1976) p. 1. 9.

“Retalho da vida de um poeta”, in “Torga, um poeta eterno”, in O Primeiro de Janeiro, Caderno Especial, (23-02-1996) p. 6-7.

“Terra Natal homenageia «Filho». Corpo de Torga passa por escola antes de romagem para cemitério”, in “A Capital” (18-01-1995) p. 32.

“Torga, um poeta eterno”, in O Primeiro de Janeiro, Caderno Especial, (23-02-1996) p. 1-15.

AA. VV. (1979). Homenagem da Faculdade de Letras de Coimbra a Miguel Torga, Coimbra: Faculdade de Letras de Coimbra.

AA. VV. (1980). Homenagem a Miguel Torga, Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura.

AA. VV. (1994). Aqui, Neste Lugar e Nesta Hora. Actas do Primeiro Congresso Internacional sobre Miguel Torga, Porto: Universidade Fernando Pessoa.

ABREU, L. MACHADO de (2002). Prefácio. Torga peninsular pela graça da vida, in A Identidade Ibérica em Miguel Torga, Cascais: Principia, p. 7-10.

AFREIXO, R. “Miguel Torga sepultado em São Martinho de Anta. O regresso às origens”, in Diário de Notícias (19-01-1995) p. 27.

ÁLVAREZ, E. “Miguel Torga e a Guerra Civil de Espanha: Um Depoimento Censurado, in Terra Feita Voz - Revista do Círculo Cultural Miguel Torga, 1 (1997) p. 39-47.

ARNAUT, A. (1988). A condição portuguesa no Diário de Miguel Torga. Coimbra: Livraria Almedina.

CARRANCA, C. (1988). Torga, o português do mundo. Coimbra: Coimbra Editora.

CÉSAR, G. (1966). “Miguel Torga, o Ibérida”, in Colóquio-Artes e Letras, 41, p. 34-36.

FAGUNDES, F. COTA (Selecção, organização e apresentação) (1997). “Sou Um Homem de Granito”: Miguel Torga e seu compromisso, (Selecção das comunicações apresentadas no Colóquio Internacional sobre Miguel Torga, realizado na Universidade de Massachusetts, em Amherst em Outubro de 1992), Lisboa: Edições Salamandra.

FREIRE, A. (1990). Lendo Miguel Torga, Porto: Salesianas.

GONÇALVES, F. de MAGALHÃES (1995). Ser e ler Miguel Torga, “Perfis” 6, Lisboa: Veja.

HERRERO, J. (1979). Miguel Torga, Poeta Ibérico, Lisboa: Arcádia.

MELO, J. de (1960). Miguel Torga, Lisboa: Arcádia.

ROCHA, C. CRABBÉ (2000) Miguel Torga – Fotobiografia, Publicações Dom Quixote Lisboa.

TORGA, Miguel (1986). Portugal. Coimbra: ed. do Autor.

TORGA, Miguel (1990). Entrevista, in MOLINA, C. A. (1990). Sobre el lberismo y Otros Escritos de Literatura Portuguesa.  Madrid: Akal, p. 187-199.

TORGA, Miguel (1991). A Criação do Mundo (edição conjunta). Coimbra: ed. do Autor.

TORGA, Miguel (1993). Contos da Montanha. Coimbra: ed. do Autor.

TORGA, Miguel (1995). Diário (edição integral). Coimbra: ed. do Autor.

TORGA, Miguel (1995;1987). 80 Poemas. Todos os poemas seleccionados e ditos pelo autor. Lisboa: EMI – Valentim de Carvalho, Música Lda.
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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

Reino Maravilhoso











Entrevista


O país e, mais particularmente, o “Reino Maravilhoso” que o viu nascer, decidiram comemorar os 100 anos do nascimento de Miguel Torga. Nós quisemos abraçar esta ideia, pois sensibilizou-nos a maneira como atravessa a sua vida na defesa da liberdade e da identidade portuguesa e a forma como se coloca e isola perante os outros na defesa da sua identidade própria e da autenticidade. Sabemos da sua aversão a prémios e a entrevistas, e desde já agradecemos por nos ter recebido, a nós, que no fundo não somos críticos nem entendidos em literatura. Apenas gostamos de ler e de aprender com Miguel Torga, de percorrer a vessada torguiana e sorver nas courelas das suas páginas o maravilhoso sentir de quem nos fala de amor, esperança, verdade e poesia.



   

Podemos perguntar-lhe quem é Miguel Torga. Como se define como poeta e escritor?
“O meu verdadeiro rosto, presente ou futuro, está nos livros que escrevi. É neles que disse quem sou e como sou”. “Não há espelho mais transparente do que uma página escrita. É nela que fica testemunhada para todo o sempre a verdade irreversível do autor”.

[...]

    Já que escolhemos o Diário como obra para concorrer no concurso “Sapo Challenge”, como nos definiria o seu Diário?

“O Diário foi começando quando eu era criança. Continuou durante a época trágica da ditadura. Portanto não havia liberdade de pensamento existia uma censura brutal. Todos os jornais estavam calados, tal como os livros. Publiquei vários que foram apreendidos imediatamente. Como sabe, estive preso. A minha mulher foi expulsa da Universidade. Então o Diário foi surgindo de várias necessidades que havia em mim. Uma delas, uma das mais importantes, foi precisamente a de estar em oposição a um poder totalmente autoritário e opressivo. Assim ia mantendo as minhas próprias contas em dia com o espírito, ia clarificando em pensamento a minha situação humana e literária, e também sentimental. Depois sucedia o seguinte. Todos os livros que publicava eram apreendidos e era como se estivessem mortos. O Diário, como o editava de três em três anos, ou de quatro em quatro, durante esse período tinha a certeza de que eu estava intacto ali e de que dispunha, portanto, do meu próprio retrato. Era assim um espelho diante da minha própria consciência. Reforçava-me nesse espelho, aumentava a minha coragem para continuar a lutar e a resistir. Depois o Diário também era sequestrado, mas eu já tinha iniciado outro e continuava a estar diante desse mesmo espelho. Sou um andarilho, um homem que gosta de conhecer as coisas. E uma das maneiras de fixar as ilusões, as sensações, as impressões que tinha diante das coisas ao recordá-las, ao querer torná-las presentes para o seu estudo, era registando-as. E o Diário é isso. Por outro lado também havia a parte poética. Como sabe no Diário também havia muita poesia. Recorda-se do primeiro poema que escrevo no Diário? É um dos mais significativos. É realmente a chave. Intitula-se “Santo e Senha”: “Deixem passar quem vai na sua estrada / Deixem passar quem vai cheio de noite e de luar / Deixem passar e não lhe digam nada…”.

:: entrevista completa (imaginária)

:: entrevista com as referências bibliográficas (pdf)

:: entrevista audiovisual (resumo)


1ª Parte






2ª Parte



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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

Poeta secular

   
    Estamos a comemorar os cem anos do nascimento de Adolfo Correia da Rocha, o egrégio escritor da língua de Camões da vigésima centúria que ocupa lugar de proeminente no altar da literatura portuguesa com o pseudónimo de Miguel Torga.

    É nosso desiderato homenagear o homem e o poeta que marcaram indelevelmente a literatura e história portuguesas.

    Pretendemos rememorar “poemas” imorredouros que são autênticos hinos ao homem, à terra e a Portugal.

publicado por 5estrailes às 22:03

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S.Leonardo de Galafura



    S. Leonardo de Galafura é o Poema. Um “poema geológico” (Diário, S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977). Este poema é um carme à paisagem do Doiro. Um poema palavra, espelho desta singular região adjectivada pelo assombro e pela beleza absoluta da paisagem natural engrandecida pela história trágico-telúrica do peculiar herói duriense, escrita nas fragas com a tinta do suor. Um hino à terra. Uma epopeia lavrada paulatinamente no coração do autor. Não tem data. Não nasceu. Foi sendo gerada. O seu antigo companheiro das batidas às perdizes, o Padre Avelino, devoto leitor e amigo do poeta, afirma que lhe tinha custado uma perdiz, que Torga falhou. Justificava-se que naquele momento se lhe estava a desenrolar um poema. Um grande poema.


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Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

O problema religioso

“Enquanto o meu corpo e o meu espírito puderem esbracejar, nunca farei o jogo sujo de erguer as mãos por cálculo diante de nenhum altar. Mas dado que sim, que exista um Deus cioso que a minha miopia me não deixa ver claramente, quero crer que é esta mesma atitude de rebeldia que espera de mim. Tragicamente postas num pé de dúvida irremediável, as nossas relações teriam de ser, e foram sempre, difíceis mas viris. De potestade a potestade. A omnipotência divina enfrentada pela inconformação humana (Diário, Lisboa, Hospital de S. Luís, 22 de Junho de 1972)     

     

 

A realização imanente da vida, sem a voz religiosa, é descrita por Miguel Torga como desespero: “Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiosos, a coisa foi secando, secando, até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar. Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano; mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da igreja com a cara que trazia o meu vizinho!” (Diário, Vila Nova, 16 de Agosto de 1936).
     
O problema da religião, do transcendente, não ficou, como vemos, esquecido no tinteiro do pai de Vicente. O poeta vive com Deus uma relação de diálogo, embora em constante oposição: “Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer” (Diário, Coimbra, 25 de Dezembro de 1984)
     
As razões latentes do seu pensamento religioso e o fundamento do seu discurso teológico, podemos procurá-los na experiência humana vivida pela criança e pelo jovem Adolfo Rocha.
     
Filho de uma aldeia transmontana e nascido de pais pobres, Torga subiu na vida pelo pau de sebo da incompreensão, do sofrimento e da revolta. Começa por ter uma vida difícil, pautada pelo trabalho penoso e pela exploração social - que tão bem retrata em Vindima - que se espelha na prostituição do salário, de que também foi vítima: “Apanhávamos de terça o souto do Mercador. Cargas de água no lombo, madrugadas de estalar de frio, trovoadas de meter medo, as mãos garanhas picadas nos ouriços, o saquito testo carregado até casa do sujeito, e deixa cá ver duas partes, e leva lá o resto” (A Criação do Mundo. O Primeiro Dia, p. 37)
     
Era testemunhando e vivendo na pele esta exploração social que Torga se rebela contra Deus. É n’Ele que encontra a génese e as causas para a falta de justiça. Deus é culpado porque entregava o livre arbítrio do mundo a forças tão desiguais e as deixava actuar sobre a máscara de um equilíbrio tão claramente falso como desajustado. Nesta acepção, pode inferir-se com Magalhães Gonçalves que todo o discurso teológico torguiano é, essencialmente, “o desdobramento eruptivo da sua história da infância” (F. de MAGALHÃES GONÇALVES, Ser e ler Miguel Torga, “Perfis” 6, Vega, Lisboa 1995, p. 36). Torga debate-se num sombrio conflito religioso, entre a necessidade e a negação. Reconhecendo Deus como resposta às inquietações do homem, falta-lhe, contudo, a audácia de um passo, ainda que pusilânime, nessa direcção: “medularmente religioso, faltava-me, contudo, a humildade necessária para acreditar” (A Criação do mundo. O Terceiro Dia, p. 174).
     
Torga é o poeta que prega o bem e a verdade. O bem e a verdade ao lado de qualquer corrente, defendam o que defenderem, venham eles de onde vierem. Como rebelde que é, isola-se para poder combater não Deus ou a religião, mas afirmar a sua “real incapacidade de adesão a igrejas de qualquer natureza - e continua - saí da religiosa em que fui criado e da literária em que entrei um dia, por motivos idênticos: faltava-me o ar naqueles fechados ambientes de ortodoxia. Na altura, tentei justificar logicamente o meu procedimento. Mas as relações que se dão para certos actos é o que deles menos importa. Abandonei as duas confrarias, e nunca mais entrei em nenhuma. Isso, sim, diz tudo. Significa que o meu espírito, embora sedento de absoluto, como sempre o conheci, se recusa a encontrá-lo em qualquer prisão dogmática, e porfia em descobri-lo no descampado inquieto da liberdade crítica” (Diário, Coimbra, 15 de Outubro de 1963). O seu pensamento religioso abre espaço às vivências religiosas ao mesmo tempo que se cerra para com os grupos religiosos instituídos: “Uma autêntica vivência religiosa deslumbra-me sempre. Mas um sistema religioso apavora-me como a própria morte” (Diário, Coimbra, 27 de Março de 1955).
 
Como homem religioso, vive mergulhado num sombrio conflito religioso, o que, porém, não nos permite afirmar que Torga seja o poeta do desespero. Ele é o poeta do desespero, mas é acima de tudo o poeta para quem a esperança permanece como a águia nas serranias que o transporta mais alto. Ela é a fada bendita que o não larga. Ele mesmo se afirma “sinaleiro da esperança no caminho de quantos neste vale de lágrimas, desesperam de a encontrar” (Diário, Ponta Delgada, 10 de Junho de 1989). Esgotado, de facto, o cálice da amargura é necesssário que surja a bebedeira da esperança, que o luto de desespero dê lugar ao sol da esperança. Para tal é urgente um “permanente acto de fé na graça lustral da esperança” (A Criação do Mundo. O Sexto Dia, p. 434).
 
É esta esperança que lhe permite um dia afirmar querer sentir-se ligado a algo mais transcendental que a imanência desta vida, a algo que não termine com a simples e derradeira pancada do coração: “Queria era sentir-me ligado a um destino extra-biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração” (Diário, Vila Nova, 16 de Agosto de 1936).
 
publicado por 5estrailes às 16:51

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A defesa da liberdade e a luta contra a mordaça fascista





   

Torga faz da liberdade a sua religião: “a sua maior fé – como escreve Letria - foi a liberdade, dela fazendo estandarte e programa de vida, sobretudo no tempo em que a ditadura a deixou proscrita e vilipendiada”. Esta luta pela liberdade e pela identidade na conjuntura política fascista e, portanto, ditadura, e sua denúncia, desembocam na prisão de Torga, no Aljube, em 1939, onde habitou os curros durante três meses. Torga é arquétipo e epifania da revolta contra a Guerra Civil Espanhola. O seu protesto valeu-lhe a prisão, alegadamente encomendada por Franco, devido à publicação de O Quarto Dia de A Criação do Mundo, onde testemunha, numa viagem pela Europa, a cruciante realidade do confronto entre as duas Espanhas, uma pátria convulsa, submetida à violência, destruída. No cativeiro, escreve Torga um dos seus mais belos poemas, um autêntico hino à liberdade, ou melhor, à ânsia de liberdade na ausência dela:

 

“Ariane é um navio.

Tem mastros, velas e bandeira à proa,

E chegou num dia branco e frio,

A este rio Tejo de Lisboa.

 

Carregado de sonho, fundeou

Dentro da claridade destas grades…

Cisne de todos, que se foi, voltou

Só para os olhos de quem tem saudades…

 

Foram duas fragatas ver quem era

Um tal milagre assim: era um navio

Que se balança ali à minha espera

Entre gaivotas que se dão no rio.

 

Mas eu é que não pude ainda por meus passos

Sair desta prisão em corpo inteiro,

E levantar a âncora, e cair nos braços

De Ariane, o veleiro”

 

 


(Diário, Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Janeiro de 1940)

 

Esta luta contra a ditadura e o seu compromisso cívico levam Torga a recusar abandonar o país e viver no estrangeiro, justificando a sua decisão: “Quando nos tempos ominosos da ditadura, em Paris, onde estava de passagem, alguns exilados da oposição teimavam comigo para que ficasse entre eles, [...] respondi que nunca poderia ser um escritor português fora de Portugal. Que me faltariam, longe dele, a linguagem da terra, a gramática da paisagem e o Espírito Santo do Povo. E regressei, para ser perseguido e preso pouco depois. Mas não desanimei” (Diário, Sabrosa, 27 de Junho de 1991).

    No pós ditadura, na era da democracia, não deixa, contudo, de criticar uma revolução que se desviou dos seus ideais, que apelida de “revolução de mentira” (Diário, Porto, 7 de Maio de 1977), que não foi, evidentemente, evidentemente, o evangelho anunciado de uma nova pátria: “Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram nas vésperas do terramoto. Cuidavam que combatiam pelo futuro e, na verdade, assim acontecia, mas apenas na medida em que o sonhavam como se ele tivesse de ser coerente com a dignidade do seu passado de lutadores. O trágico é que um futuro sonhado não passa de uma ficção” (Diário Coimbra, 20 de Junho de 1975). E continua: “O que apelidamos de revolução é um despautério social a que teimamos em dar esse nome sagrado. Quem faz revoluções não exibe revoluções” (Diário, Coimbra, 1 de Julho de 1975).
 
A respeito da revolução dos cravos, temos de rememorar o que ele escreve em 1978: “Bem quero, mas não consigo alhear-me da comédia democrática que substituiu a tragédia autocrática no palco do país. Só nós! Dá vontade de chorar, ver tanta irreflexão. Não aprendemos nenhuma lição política, por mais eloquente que seja. Cinquenta anos a suspirar sem glória pelo fim de um jugo humilhante, e quando temos a oportunidade de ser verdadeiramente livres escravizamo-nos às nossas obsessões. Ninguém aqui entende outra voz que não seja a dos seus humores. É humoralmente que elegemos, que legislamos, que governamos. E somos uma comunidade de solidões impulsivas a todos os níveis da cidadania. Com oitocentos anos de História, parecemos crianças sociais. Jogamos às escondidas nos corredores das instituições” (Diário, Chaves, 12 de Setembro de 1978).
 
A liberdade é uma aposta na vida - “a vida é a última e mais intangível liberdade do homem” (Diário, Coimbra, 14 de Julho de 1983),  – e na autenticidade: “Só depois de se ser autêntico se é livre” (Diário, Lisboa, 19 de Março de 1992). Paladino desta “liberdade identificada” (Diário, Lisboa, 19 de Março de 1992). Torga reconhece a dificuldade em sermos totalmente livres, mas advoga que reside na opção pela autenticidade a nossa responsabilidade: “Liberdade. Passei a vida a cantá-la, mas sempre com a identidade no pensamento, ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode-nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade” (Diário, Coimbra, 1 de Março de 1950). Aliás, foi este o seu santo e senha pela vida fora: “Lutei a vida inteira para ser livre. Mas consegui apenas preservar a minha identidade” (Diário, Coimbra, 2 de Outubro de 1990).
 
É como defensor da liberdade e da verdade, da verdade livre, que Torga peregrina a sua caminhada existencioal. Quer como filho de Dante quer na arte de Hipócrates, no seu dia-a-dia, coloca a drapejar no alto do seu peregrinar este vexilo que será a sua estrela polar de orientação, nem que para isso, em nome da liberdade, da verdade, da sinceridade e da autenticidade, tenha de isolar-se e revoltar-se, vivendo marginal à corrente, onde, segundo ele, seria bem mais fácil caminhar e romper caminho. Torga que foi, na sua pena, um poeta diligente na defesa da liberdade: “Sim, fui sempre um poeta empenhado na minha liberdade e na dos outros” (Diário, Coimbra, 23 de Agosto de 1988).
 
Torga, corifeu lapidar da liberdade, não a concebia sem amor: “a liberdade é uma vocação do amor” (Paraíso, p. 79) e apura-se na solidão, “é uma penosa conquista da solidão” (Diário, Coimbra, 1 de Maio de 1978). Da defesa da liberdade chega Torga à defesa da vida, ao combate pela vida, pois “a vida é a última e mais intangível liberdade do homem” (Diário, Coimbra, 14 de Julho de 1983).
 

 

publicado por 5estrailes às 16:06

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O humanismo torguiano

“O homem continua a ser a minha grande aposta. Sem acreditar nele, como poderia acreditar em mim?” (Diário, Lisboa, 23 de Novembro de 1982)
 

Dentro deste panorama geográfico, que é a pátria, mantém-se fiel à sua condição de homem simples, de homem do povo, de “filho, neto, bisneto e tetraneto de obscuros cavadores, carreeiros e almocreves que séculos a fio saibraram, sulcaram e palmilharam as encostas do Doiro” (Diário, Régua, 19 de Agosto de 1979), ele que foi, além disso, “criado a ouvir a crónica deles e a de quantos os acompanhavam na via sacra e Deus sabe até que ponto ela era dolorosa” (Diário, Régua, 19 de Agosto de 1979).

A Comunhão com as suas gentes, marco geodésico da obra do poeta nascido no Marão, é epifania da sua Comunhão com toda a humanidade nos altares da vida. A comunhão com o semelhante, sobretudo o povo simples, porque autêntico, dita a Torga o seu ideal humanista.

O desespero humanista lança as suas raízes na constante procura do verdadeiro sentido da existência humana, que não consegue atingir na sua plenitude, o que o mergulha na angústia. Torga anela dissecar os mistérios do ser e da vida pelo bisturi da introspecção, um mistério que insondavelmente nos define e nenhuma anábase ao cerne da interioridade, por mais lúcida, paulatina, sincera e profunda, consegue aclarar. Como humanista, Torga manifesta a sua preocupação com o ser humano, as suas limitações e a sua necessidade de transcendência. Vive inquieto com a vida humana, a existência, o destino, o sentido da morte, a condição terrena. Representado sob a forma de protesto, de revolta e de inconformismo, são a liberdade e a esperança os valores que articulam o seu humanismo.

Torga projecta, na sua escrita, as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e as suas necessidades de transcendência. Revela, na letra rasgada burilada a cinzel por este “pedreiro teimoso” (Diário, S. Martinho de Anta, 6 de Abril de 1955), a história particular que os nossos passos vão deixando gravados nas páginas invisíveis do tempo. Evidencia um certo sofrimento magoado, feito desassossego, que fazem de Torga uma corda de viola esticada entre dois extremos: o sofrimento e a esperança. A esperança e a desesperança surgem como expressão de um conflito íntimo que se desenvolve no interior do Poeta. Torga é um “sinaleiro da esperança” (Diário, Ponta Delgada, 10 de Junho de 1989) mas, concomitantemente, “amarrado à cruz do sofrimento” (Diário, Coimbra, 10 de Fevereiro de 1984). Nos seus poemas, escandidos de uma beleza seivosa, ainda que quando repassados de tristura, bate uma luz vesperal de indecisão entre a esperança e o desespero. A vida, com as suas circunstâncias, anemia progressivamente as pétalas da esperança, mergulhando o homem nas águas inóspitas do desespero. Urge “semear ao menos o penisco da esperança no chão actual” (Diário, Coimbra, 31 de Maio de 1958) e, ainda que os frutos sejam serôdios, é já uma promessa de salvação.

“Homem do humano” (Diário, Pisa, 6 de Setembro de 1970), a sua palavra é a sístole ou a diástole de um coração que nunca deixou de bater humanamente.

O homem, que na prospecção aos mares incógnitos do humano, descobre como mistério. Um mistério indeclinável, oculto, impenetrável, opaco a todas as luzes. Um mistério que é pessoal, envolvente, mas que o revela no mais profundo de si. Mistério este que é permanente e que foge a todas as regras e medidas: “Não encontrei resposta para nenhuma das perguntas inquietantes que em momento algum deixou de me fazer a voz atormentada da alma” (Diário, Nazaré, 12 de Agosto de 1969).


Face a esta inquietação, que resulta da questão fundamental, parece levantar-se a questão da opção do sentido. O sentido que está, como afirma Torga nas palavras dos oitenta e quatro anos, na “graça desta comunhão humana, sem a qual a passagem pelo mundo não teria sentido” (Diário, Coimbra, 12 de Agosto de 1991).

O homem depende da comunhão com o seu semelhente. Só quando convivemos com os outros é que somos nós em realidade: “Afinal - escreve Miguel Torga -, dependo, como humano, da comunhão com a humanidade dos outros (...). Só quando convivo, em pensamento, palavras e obras, vivo e sou realmente eu” (Diário, Coimbra, 20 de Outubro de 1984).

É no desespero que o homem sente mais agoniadamente a necessidade desta relação com o semelhante, a necessidade de “sentir as pancadas do coração sincronizadas com as doutros corações” (Diário, Miramar, 25 de Julho de 1961), numa tentativa de mitigar a dor: “Era um parceiro de vida que eu precisava agora, oco tambor que fosse, com o qual acertasse o passo da inquietação” (Diário, Miramar, 25 de Julho de 1961). De facto, até a Bíblia, “o livro dos livros, nos ensina que não há homem sem homem, e que o próprio Cristo teve, a caminho do Calvário, a fortuna dum Cireneu para o aliviar do peso da cruz” (Diário, Malaposta, 12 de Agosto de 1987)

A comunhão é definida por Torga como a (con)vivência tolerante, livre e fraterna do género humano. É nesta acepção que Torga faz a apologia de todas as suas meditações e de toda a sua obra, “ter pensado sempre em termos de livre comunhão e desinteressada fraternidade o mundo redondo” (Diário, Estoril, 8 de Junho de 1992). O amor torna-se, destarte, no garante da liberdade: “Só na reciprocidade do amor a liberdade encontra a sua expressão verdadeira” (Diário, Coimbra, 9 de Julho de 1985).

      Torga, poeta e homem livre – “poucos devem ter tido no mundo a minha sorte: ser um homem inteiramente livre?” (Diário, Coimbra, 20 de Maio de 1947), é o estreme corifeu da liberdade, não uma liberdade decretada, mas uma liberdade dom, intrínseca à própria identidade da pessoa: “Ser livre é um imperativo que não passa pela definição de nenhum estatuto. Não é um dote, é um dom” (Diário, Coimbra, 5 de Dezembro de 1973).

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Um Portugal ibérico e universal

“A minha pátria cívica acaba em Barca de Alva; mas a minha pátria telúrica só finda nos Pirinéus. Há no meu peito angústias que necessitam da aridez de Castela, da tenacidade vasca, dos perfumes do Levante e do luar andaluz. Sou, pela graça da vida, peninsular. Ardo no fogo desta fé que nos devora, exalto-me nas ambições desmedidas dos nossos maiores, e afundo-me dentro de uma invencível armada de quimera” (Diário, Coimbra, 14 de Novembro de 1985).

O Portugal de Torga é o Portugal ibérico e universal. Escreve Torga: “Sou um português hispânico. Nasci numa aldeia transmontana, mas respiro todo o ar peninsular. Cioso da minha pátria cívica, da sua independência, da sua História, da sua singularidade cultural, gosto, contudo, de me sentir galego, castelhano, andaluz, catalão, asturiano ou vasconço nas horas complementares do instinto e da mente. E, como à dura condição de existir junto a de escrever, muito papel tenho lavrado a contar as emoções desse convívio físico e espiritual sem fronteiras” (Diário, Coimbra, 11 de Novembro de 1985).
 
O seu Portugal não se confina à pátria telúrica, mas é Portugal alargado à lusofonia, uma diáspora de comunidades falantes e escreventes na pátria pessoana. Os povos unidos pelo cordão umbilical da expressão são, para Torga, portugueses heterónimos, ou melhor, maneiras heterónimas de se ser português. O seu Portugal é um Portugal sem localismos, universal. Torga é o mais lídimo corifeu do espírito de fidelidade às origens, esse modo específico de ser no mundo sem trair a raiz e de ser tanto mais universal quanto mais coerente e profundamente identificado com o particular: “O universal é o local sem paredes. É o autêntico que pode ser visto de todos os lados, e em todos os lados está certo, como a verdade” (Traço de União, p. 69).
 
A sua obra, arraigada num espaço cultural português, projecta-se num horizonte de universalidade: é através de uma apaixonada consciência do seu país natal que Torga nos ensina a procurar a verdade universal da nossa habitação humana do terreste: “o mundo é uma realidade universal desarticulada em biliões de realidades individuais” (Diário, Paris, 11 de Janeiro de 1938).). Nesta acepção, podemos falar em Miguel Torga da sua condição singular de Português Universal e caracterizar o seu drama como o drama de Trás-os-Montes alargado até aos confins da alma e do mundo.
publicado por 5estrailes às 16:00

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Torga, Portugal antropomorfizado

“Ah, sim, lá conhecer Portugal conheço-o eu! Não houve aceno de monte ou de planície a que não respondesse. Subi a todas as serras e calcorreei todos os vales desta pátria. Por isso, quando chegar a hora da grande jogada, tenho um trunfo a meu favor que há-de desconcertar a morte: a íntima certeza de que não vou estranhar a cama, seja qual for o sítio onde me enterrem"(Diário, Pinhel, 21 de Outubro de 1955)


Fiel a um patriotismo telúrico, o grande poeta da montanha, apresenta-se ante nossos olhos como um autor perfeitamente identificado com a realidade telúrico-social portuguesa. As páginas, que lhe saem da pena, são carne viva onde se estampa o plasma matricial da pátria.

 A “parábola” dos seus dias é o auto-retrato de Portugal, um mapa físico e espiritual da pátria, onde se revela um Portugal real, cheio de virtudes e defeitos, que quer caminhar para um futuro de liberdade, progresso e justiça social, sem perder os valores matriciais, que são o timbre da sua identidade, tantas vezes ameaçada e prostituída pela visão míope dos turibulários do poder e a astenia cultural e patriótica do povo, siderado pelos acenos transfronteiriços. Um Portugal que, masoquisticamente, se desfigura, envergonhado da sua identidade própria. Um Portugal que ele conhece de tanto o percorrer numa procura desenfreada do sinal da nossa originalidade profunda: “É o sinal da nossa originalidade profunda que eu procuro por todas as romarias, festas, feiras e fainas de Portugal” (Diário, Guimarães, 8 de Agosto de 1949).

 Este peregrinar constante do homem que comia terra pela pátria portuguesa leva-o a afirmar o seu telurismo: “sou, na verdade, um geófago insaciável necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes e de montanhas, e quase que me sinto depois uma província suplementar de Portugal” (Diário, Gerês, 17 de Agosto de 1958).

    A obra de Torga é testemunho testamento do Portugal mítico, universal, humanista. Português com quantos glóbulos lhe correm nas veias, Torga, pela sua obra, é a fotografia autêntica da nossa personalidade profunda, inconfundível, depurada da heterogénea idiossincrasia e do sincretismo cultural que configura a nação portuguesa.

     Torga é o indómito defensor da nossa autenticidade, pretendendo vencer a osteomalácia da nossa vertebração patriótica, que a densa cegueira axiológica nos impede de identificar e defender numa ânsia histriónica e desaustinada de afirmação no mundo, uma apologia que, por vezes, se transforma em penitência: “guardião lírico da identidade nacional, padeço tormentos sempre que a vejo ameaçada” (Diário, Funchal, 25 de Agosto de 1980). Apostado numa busca desenfreada de um paroxismo de lusitanidade, é o radar perscrutador que melhor nos desfibra e formulou numa hipérbole a síntese que nos define e nos identifica, como heróis específicos, enraizados mais espiritual do que carnalmente, num chão determinado.

    Torga manifesta-se-nos como um acérrimo defensor da identidade cultural portuguesa, que se foi construindo ao longo do tempo e da história, no contacto com as outras culturas.

    É esta identidade que Torga afirma contra aqueles que a pretendem negar ou pelo menos obscurecer a pretexto de unidades ilusórias como é o tratado de Maastricht - “acrescentai, por favor, que lutei, luto e lutarei até ao derradeiro alento pela preservação dessa identidade, última razão de ser de qualquer indivíduo ou colectividade, e que repudio com todas as veras da alma a irresponsabilidade da Europa que em Maastricht, sorna
mente, a tenta negar, trair-se e trair-nos. E que, além de no presente recusar assim radicalmente o cerceamento à minha expressão ocidental, me orgulho de no passado, sem compromisso de nenhuma ordem, e às claras, ter pensado sempre em termos de livre comunhão e desinteressada fraternidade o mundo redondo (...). Que sou, desde que me conheço, um seu devotado cidadão português” (Diário, Estoril, 8 de Julho de 1992). Numa gargalhada linguística, desafinando da euforia oficial dos governantes portugueses relativamente às consequências da entrada na União Europeia, desabafa no seu Diário: “Abolição das fronteiras. Livre circulação de pessoas e bens. Ocupados sem resistência e sem dor. Anestesiados previamente pelos invasores e seus cúmplices, somos agora oficialmente europeus de primeira, espanhóis de segunda e portugueses de terceira” (Diário, Coimbra, 2 de Janeiro de 1992).

    
É esta realidade que nos faz definir Miguel Torga como o indisfarçável protótipo do cidadão português de sempre. É por isso que podemos afirmar que o poeta é o seu país antropomorfizado, que a sua voz é a voz de Portugal, que Torga é um poeta em quem Portugal se diz, que o poeta é a consciência da pátria.



publicado por 5estrailes às 15:51

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O telurismo torguiano e a apologia da identidade de Portugal

     

A um Negrilho

Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
serrana!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

(Diário, S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954)

     

 

A eufonia da linguagem torguiana permite-nos ouvir o coração da terra pulsando na semântica das palavras. Este deus do luso capitólio das letras é um poeta telúrico, identificado com a terra, definindo-se como um “geófago insaciável” (Diário, Gerês, 17 de Agosto de 1958). A terra é a fonte de onde tudo parte e onde tudo regressa, é génese e porto de viagem, princípio e fim, mãe e alimento. É esta comunhão com a terra que levam o poeta a estabelecer aqui a sua morada: “sou da terra e sou por ela” (Diário, Coimbra, 5 de Maio de 1946). E em resposta ao axioma de Jesus Cristo “o meu reino não é deste mundo” responde Torga, em sentido antagónico, a epitomisar o seu telurismo, “e o meu, precisamente, é” (Diário, Coimbra, 5 de Maio de 1946).


A caça é para Torga um ritual de comunhão com a terra. Cinegeticófilo de condição, “é na caça que a minha natureza profunda se encontra: - os olhos com a luz, o ouvido com os sons, o tacto com as coisas, o olfacto com os aromas, o sangue com o sangue” (Diário, Folgozinho, Serra da Estrela, 8 de Dezembro de 1973).

 

No seu telurismo, Torga afirma, convictamente, que o homem deve unir-se à Terra, ser-lhe fiel, pois para o poeta, a terra surge como a base da vida e do sentido, chegando mesmo a considerá-la como um ventre materno. Torga personifica a Terra como uma mulher disposta para a fecundação, considerando-a como um ventre materno. O sentimento de identificação com a terra projecta-se num amor pelo “reino maravilhoso” que é S. Martinho de Anta, Portugal e a Ibéria. O telurismo de Torga exprime-se no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de português, de ibérico, no espírito da comunhão europeia e universal. 

publicado por 5estrailes às 15:20

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Diário

“Este diário (…) não é uma crónica dos meus dias, mas a parábola deles” (Diário, Coimbra, 3 de Agosto de 1970)






Pode considerar-se Miguel Torga pioneiro e representante por antonomásia da escrita diarística portuguesa, por ser, juntamente com Virgílio Ferreira, com Conta Corrente, dos que lhe conferiram maior significância. O Diário torguiano, que o autor publicou ininterruptamente entre 1941 e 1993, retratam o pulsar do autor sobre o homem, o mundo e a vida entre 3 de Janeiro de 1932 e 10 de Dezembro de 1993. Este não é o retrato fiel dos acontecimentos e da vida do homem Adolfo Rocha, mas os estremecimentos e reflexões do autor sobre as circunstâncias e conjunturas da vida, como o revela no seu último Diário: “E chega ao fim, com este volume, um livro que comecei a escrever um pouco estouvadamente há sessenta anos, e acabo agora com mais assento. Como é sabido, ninguém conhece o dia de amanhã, e, pelo que me diz respeito, fui um mártir dessa incerteza. E iniciei o presente tomo quase seguro de que o não terminaria. O resultado está à vista: um estendal de dúvidas e gemidos. Mesmo assim, talvez valha a pena que se junte aos outros, como seu natural remate. Mais do que páginas de meditação, são gritos de alma irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à exaustão. E se despede dos seus semelhantes sem azedume e sem ressentimentos na paz de ter procurado vê-los e compreendê-los na exacta medida. E que confia no juízo da posteridade, que certamente lhe vai relevar os muitos defeitos e ter em conta as poucas mas sofridas virtudes (Diário, Coimbra, 9 de Dezembro de 1993).

 Para quem for à cata da verdadeira fisionomia cultural, humana, filosófica, religiosa e intelectual ou política do seu autor, este elucida-o e adverte-o: “Este diário (…) não é uma crónica dos meus dias, mas a parábola deles” (Diário, Coimbra, 3 de Agosto de 1970).

A sua grafia encerra um tríptico que se evidencia: o seu desespero, um desespero humanista, a sua problemática religiosa e a obsessão telúrica.
 

 

publicado por 5estrailes às 14:43

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Sábado, 10 de Fevereiro de 2007

Apresentação da nossa escola!


Cá está a nossa escola: E. B. 2/3 de Celeirós:

Se quiserem visitar é só ir a
http://www.eb23-celeiros.rcts.pt/




"Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela, nem ela repara em mim"

 (Diário, Coimbra, 06 de Fevereiro de 1932)

publicado por 5estrailes às 11:28

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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

Apresentação



Olá! Estes somos nós... Daniela, Tiago, Patrícia, Rogério e Joana. Somos simpáticos, divertidos e estamos sempre prontos a aprender coisas novas! Esperemos que gostem!
sinto-me:
publicado por 5estrailes às 22:21

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Bibliografia

 

ABREU, L. MACHADO DE (2002). Prefácio. Torga peninsular pela graça da vida, in A Identidade Ibérica em Miguel Torga, Cascais: Principia,  p. 7-10.

 

ÁLVAREZ, E. (1996). Iberismo, Hispanismo e Hispanofilia en Portugal en la última década, in “Revista de História das Ideias”, 18 (1996) p. 373-387.

HERRERO, J. (1979). Miguel Torga, Poeta Ibérico, “Artes e Letras”. Lisboa: Arcádia

 

LOURENÇO, E. (1980). O Portugal de Torga, in Homenagem a Miguel Torga. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura, p. 15-22.

 

LOURENÇO, E. (1995).  O Portugal de Torga, in “Colóquio-Letras”, 135/136 (1995) p. 5-12

 

MADAÍL, F. (1995). “Um homem fiel à liberdade”, in “Diário de Notícias” (19-01-1995) p. 28.

 

MELO, J. de (1960). Miguel Torga, “A Obra e o Homem” 2. Lisboa: Arcádia.

 

MELLO, C. (1998). Miguel Torga - o Escritor e o Cidadão, in “Terra Feita Voz” - Revista do Círculo Cultural Miguel Torga, 2 (1998) p. 79-94.

 

MOLINA, C. A. (1990). Sobre el lberismo y Otros Escritos de Literatura Portuguesa, Madrid: Akal.

 

MORAIS, M. da A. MORAIS (1997). Trás-os-Montes: um paraíso perdido e reencontrado por Torga, in “Estudos Transmontanos e Durienses”, 7 (1997) p. 169-184.

 

QUADROS, A. (1989). O Portugal de Miguel Torga, uma visão-assunção telúrica, in

 

QUADROS, A., A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos últimos 100 Anos. Lisboa: Fundação Lusíada, p. 172-177

 

Ainda na net......


http://www.vidaslusofonas.pt/miguel_torga.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Torga

http://nescritas.nletras.com/anobreindece/biografia.htm 

http://www.instituto-camoes.pt/CVC/figuras/mtorga.html

http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/torga.html

http://www.leme.pt/biografias/escritores/torga/

http://www.espigueiro.pt/reportagem/06eb61b839a0cefee4967c67ccb099dc.html

publicado por 5estrailes às 22:04

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Livros publicados e prémios

 Obras Publicadas:

Poesia

1928 - Ansiedade

1930 - Rampa

1931 - Tributo

1932 - Abismo

1936 - O Outro Livro de Job

1943 - Lamentação

1944 - Libertação

1946 - Odes

1948 - Nihil Sibi

1950 - Cântico do Homem

1952 - Alguns Poemas Ibéricos

1954 - Penas do Purgatório

1958 - Orfeu Rebelde

1962 - Câmara Ardente

1965 - Poemas Ibéricos

 

Ficção

1931 - Pão Ázimo

1934 - A Terceira Voz

1937 - Criação do Mundo. Os Dois Primeiros Dias

1938 - O Terceiro Dia da Criação do Mundo

1939 - O Quarto Dia da Criação do Mundo

1940 - Bichos

1941 - Contos da Montanha

1942 - Rua

1943 - O Senhor Ventura

1944 - Novos Contos da Montanha

1945 - Vindima

1950 - Portugal

1951 - Pedras Lavradas

1955 - Traço de União

1974 - O Quinto Dia da Criação do Mundo

1976 - Fogo Preso

1981 - O Sexto Dia da Criação do Mundo

 

Teatro

1941 - Terra Firme, Mar

1947- Terra Firme (edição refundida)

1947 - Sinfonia

1949 - O Paraíso

1958 - Mar (edição refundida)

 

Diário

1941 - Diário (vol. I)

1943 - Diário (vol. II)

1946 - Diário (vol. II)

1949 - Diário (vol. IV)

1951 - Diário (vol. V)

1953 - Diário (vol. VI)

1956 - Diário (vol. VII)

1959 - Diário (vol. VIII)

1964 - Diário (vol. IX)

1968 - Diário (vol. X)

1973 - Diário (vol. XI)

1977 - Diário (vol. XII)

1983 - Diário (vol. XIII)

1987 - Diário (vol. XIV)

1990 - Diário (vol. XV)

1993 - Diário (vol. XVI)

 

Traduções

 

Livros seus estão traduzidos para diversas línguas, algumas vezes publicados com um prefácio seu: Alemão, Basco, Búlgaro, Castelhano, Catalão, Chinês, Finlandês, Francês, Galego, Inglês, Italiano, Japonês, Lituano, Neerlandês, Norueguês, Polaco, Romeno, Russo, Servo-Croata, Sueco.

 

Prémios

1969 - Prémio do Diário de Notícias.

1976 - Prémio Internacional de Poesia de Knokke-Heist.

1980 - Prémio Morgado de Mateus, ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade.

1981 - Prémio Montaigne da Fundação Alemã F.V.S.

1989 - Prémio Camões.

1991 - Prémio Personalidade do Ano.

1992 - Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.

1993 - Prémio da Crítica, consagrando a sua obra.

publicado por 5estrailes às 21:45

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Biografia

Adolfo Correia da Rocha nasceu em São Martinho de Anta, Sabrosa, distrito de Vila Real, naquele longínquo ano de 1907, a 12 de Agosto.

Feita com distinta distinção a escola primária, dois caminhos se lhe afloravam no despontar da sua aurora juvenil: a frequência do Seminário ou a emigração para o Brasil. Acabou por trilhar ambos. Em Lamego, no Seminário, mal chegou a declinar o Rosa Rosae. No Brasil andou cinco anos por Minas Gerais. Na fazenda de Santa Cruz, pertença de um tio seu, foi capinador, vaqueiro, apanhador de café e caçador de cobras. A este lugar e a este tempo chamou ele o “cativeiro da fazenda” (A Criação do Mundo. O Segundo Dia, p. 119), o “terreiro da sua infelicidade” (Ibidem), “onde ficavam o moinho, o chiqueiro, os currais, o paiol, todas as estacões da Via-Sacra” (Ibidem).

Abandonado este calvário, de regresso a Portugal, completa em apenas três anos o curso dos liceus e em 1928 inicia o curso de Medicina, em Coimbra. É neste ano que publica o seu primeiro livro de poesia: Ansiedade.

Decorridos dois anos, abandona o grupo literário da Presença e funda com Branquinho da Fonseca a revista Sinal, de que sai um número apenas. Mais tarde, chega a fundar com Albano Nogueira a revista Manifesto, de que apenas cinco números vêem a luz da impressão.

Torga isola-se, assim, de todos os clãs literários para poder ser livre de dizer, para não ter que deixar a “verdade sepultada no tinteiro, nem a sinceridade disfarçada na penumbra das palavras” (A Criação do Mundo. O Terceiro Dia, p. 159) e manter-se sempre fiel à sua verdade: “Todo o meu afinco a lavrar papel teve uma lei: nem me enfatuar, nem mentir. Ser como sou, doesse a quem doesse. A mim, em primeiro lugar” (Diário, Coimbra, 12 de Março de 1992).

Acabada a licenciatura em Medicina, ano de 1933, começa por exercer clínica em São Martinho de Anta e Vila Nova. Depois viria a especializar-se como otorrinolaringologista.

Em 1934 passa a adoptar na sua actividade literária o pseudónimo de Miguel Torga, com que consagra a sua obra de escritor. Miguel, em homenagem aos três Miguéis ilustres espanhóis: Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Torga é, simplesmente, a urze que cresce estoicamente fazendo malabarismos, alimentando-se das fragas que vai mordendo sem que por isso deixe de produzir flores mimosas no meio dos matagais. A urze que cresce e floresce sempre resistente às intempéries é bem o espelho onde se pode ver a imagem fidedigna de um autor que bem precisava de encarnar a dureza do arbusto mais córneo e rústico destas serras para vencer os mil desfiladeiros de uma vida inteira vestida do avesso.

Agarrado à enxada da escrita, ferramenta da tortura e da redenção, escrever é para este deus maior do nosso pequeno Olimpo literário um “um acto ontológico” (Diário, Coimbra, 19 de Março de 1992), “um acto sagrado” – como o confessou um dia numa das raras entrevistas concedida a C. A. Molina (Entrevista, in C. A. MOLINA (1990): p. 193) -, “que compromete perpetuamente quem o pratica. Que nenhum outro implica tanta responsabilidade e tanto risco” (Diário, Coimbra, 19 de Março de 1992).

Repartido entre as duas rabiças a que nascera condenado, o bisturi e a caneta, o ofício de médico, exerce-o com humanidade estreme e seriedade austera, uma ruga de inquietação na fronte e um sentimento de fraternidade na alma: “Sempre que visto esta bata sinto-me paramentado, investido numa ordem iniciática de que o primeiro troglodita que exorcizou com rezas e fumos os males do vizinho foi o fundador (...). Saibam todos que a forma suprema de dar solidariedade a alguém é valer-lhe na doença, quando, indefeso, luta com a dor e a morte (...). Uma coisa posso afirmar: se é no balanço de um poema que elevo mais alto o espírito, é a auscultar o coração desfalecido de um semelhante que sinto pulsar o meu com mais assumida humanidade” (Diário, Coimbra, 17 de Novembro de 1978).

Escritor de singular craveira, notoriamente isolado, de raiz acentuadamente nativa, mantém-se insubornável, avesso a compadrios, a acomodações e ao tráfico de influências que cruza tantas vezes a nossa cena literária. “Mercê dos seus talentos e da sua seriedade literária impoluta, conquistou um lugar de relevo que não deve talas a ninguém, nem usou muletas de apoio de qualquer espécie” (F. DE MOURA, Vestígios de Miguel Torga., ed. David Jorge Ferreira, Barcelos 1977, p. 15); “conquistou um nome sem acrobacias de saltimbanco, sem filiação em confrarias de elogio-mútuo e sem concessões para os lados do quadrante de onde lhe chove o mau tempo, de vez em quando” (Ibidem, p. 45). Com uma vida limpa e isenta de hipotecas e capelinhas literárias e lateral a convívios suspeitos de elogios-mútuos, realizou Torga o seu santo e senha: “Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar comum” (Diário, Montalegre, 1 de Setembro de 1990). Job rebelde, autónomo, único, contestatário, implacável com quaisquer tabus, com grupos de pressão e até com círculos de intelectuais anódinos e retóricos, Torga lembra a rês tresmalhada que não quer abrigo no calor do redil de nenhum dono, no chouto de nenhum rebanho. Ele é o poeta “rebelde de nascença, sem nome possível numa ficha partidária” (Fogo Preso, p. 105).

Ao longo de sessenta anos de criação ininterrupta e prolífica, cantou o amor da terra e das gentes, o amor da liberdade, o sentimento de fraternidade - “não me dói nada meu particular, peno cilícios da comunidade” (Cântico do Homem, p. 17) - e a crença no homem.

Tristes são os dias em que perdemos tudo quanto amamos e sonhamos. Porque às doze horas e trinta e três minutos do dia dezassete de Janeiro, quando ocorria o octogésimo oitavo ano da sua vida, Adolfo Correia da Rocha encerrava o capítulo terreno de uma vida marcada pela fidelidade à meditação e à escrita. Ao longo de seis décadas dedicou-se a meditar diante da janela, com o Mondego sentado à sua frente. Serena e heroicamente auscultou o homem, a criação e a morte, como um ladrão de almas, para extrair ressonâncias universais.

Com uma certidão de óbito, um abate nos cadernos eleitorais e uma lousa no cemitério, fica definitivamente estabelecida a curta ponte entre o ser e o não-ser e a dimensão da sua identidade. Saldo negativo, afinal, como o é o de toda e qualquer existência, mormente para quem o mistério da morte é o de não oferecer nenhum.

             A obra de Miguel Torga permanecerá como um documento dos grandes testemunhos artísticos do nosso tempo e constitui um documento imperecível sobre um Portugal profundo de sofrimento e esperança. Uma anamnese sobre o quotidiano de todos os anos em que perdemos um pouco de nós mesmos, só recuperável pela preservação e memória da escrita de Torga, que nos ajuda a cumprir o nosso destino de homens. Feliz é o tempo que sabe guardar memória desses homens. Por isso é tão urgente continuar a lê-lo e a amá-lo. Por isso é tão irremediável tê-lo perdido.

 

 

 

 

 

publicado por 5estrailes às 21:29

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Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Abertura

 

 

“Ficou um pouco atónito quando declarei no meio da conversa que só havia três coisas sagradas na vida: a infância, o amor e a doença. Mas depois compreendeu. Acabei por lhe demonstrar que tudo se podia atraiçoar no mundo, menos uma criança, o ser que nos ama e um enfermo. Em todos esses casos a pessoa está indefesa" (Diário, Coimbra, 27 de Outubro de 1974).

 

 

 

publicado por 5estrailes às 18:42

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