Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Torga, Portugal antropomorfizado

“Ah, sim, lá conhecer Portugal conheço-o eu! Não houve aceno de monte ou de planície a que não respondesse. Subi a todas as serras e calcorreei todos os vales desta pátria. Por isso, quando chegar a hora da grande jogada, tenho um trunfo a meu favor que há-de desconcertar a morte: a íntima certeza de que não vou estranhar a cama, seja qual for o sítio onde me enterrem"(Diário, Pinhel, 21 de Outubro de 1955)


Fiel a um patriotismo telúrico, o grande poeta da montanha, apresenta-se ante nossos olhos como um autor perfeitamente identificado com a realidade telúrico-social portuguesa. As páginas, que lhe saem da pena, são carne viva onde se estampa o plasma matricial da pátria.

 A “parábola” dos seus dias é o auto-retrato de Portugal, um mapa físico e espiritual da pátria, onde se revela um Portugal real, cheio de virtudes e defeitos, que quer caminhar para um futuro de liberdade, progresso e justiça social, sem perder os valores matriciais, que são o timbre da sua identidade, tantas vezes ameaçada e prostituída pela visão míope dos turibulários do poder e a astenia cultural e patriótica do povo, siderado pelos acenos transfronteiriços. Um Portugal que, masoquisticamente, se desfigura, envergonhado da sua identidade própria. Um Portugal que ele conhece de tanto o percorrer numa procura desenfreada do sinal da nossa originalidade profunda: “É o sinal da nossa originalidade profunda que eu procuro por todas as romarias, festas, feiras e fainas de Portugal” (Diário, Guimarães, 8 de Agosto de 1949).

 Este peregrinar constante do homem que comia terra pela pátria portuguesa leva-o a afirmar o seu telurismo: “sou, na verdade, um geófago insaciável necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes e de montanhas, e quase que me sinto depois uma província suplementar de Portugal” (Diário, Gerês, 17 de Agosto de 1958).

    A obra de Torga é testemunho testamento do Portugal mítico, universal, humanista. Português com quantos glóbulos lhe correm nas veias, Torga, pela sua obra, é a fotografia autêntica da nossa personalidade profunda, inconfundível, depurada da heterogénea idiossincrasia e do sincretismo cultural que configura a nação portuguesa.

     Torga é o indómito defensor da nossa autenticidade, pretendendo vencer a osteomalácia da nossa vertebração patriótica, que a densa cegueira axiológica nos impede de identificar e defender numa ânsia histriónica e desaustinada de afirmação no mundo, uma apologia que, por vezes, se transforma em penitência: “guardião lírico da identidade nacional, padeço tormentos sempre que a vejo ameaçada” (Diário, Funchal, 25 de Agosto de 1980). Apostado numa busca desenfreada de um paroxismo de lusitanidade, é o radar perscrutador que melhor nos desfibra e formulou numa hipérbole a síntese que nos define e nos identifica, como heróis específicos, enraizados mais espiritual do que carnalmente, num chão determinado.

    Torga manifesta-se-nos como um acérrimo defensor da identidade cultural portuguesa, que se foi construindo ao longo do tempo e da história, no contacto com as outras culturas.

    É esta identidade que Torga afirma contra aqueles que a pretendem negar ou pelo menos obscurecer a pretexto de unidades ilusórias como é o tratado de Maastricht - “acrescentai, por favor, que lutei, luto e lutarei até ao derradeiro alento pela preservação dessa identidade, última razão de ser de qualquer indivíduo ou colectividade, e que repudio com todas as veras da alma a irresponsabilidade da Europa que em Maastricht, sorna
mente, a tenta negar, trair-se e trair-nos. E que, além de no presente recusar assim radicalmente o cerceamento à minha expressão ocidental, me orgulho de no passado, sem compromisso de nenhuma ordem, e às claras, ter pensado sempre em termos de livre comunhão e desinteressada fraternidade o mundo redondo (...). Que sou, desde que me conheço, um seu devotado cidadão português” (Diário, Estoril, 8 de Julho de 1992). Numa gargalhada linguística, desafinando da euforia oficial dos governantes portugueses relativamente às consequências da entrada na União Europeia, desabafa no seu Diário: “Abolição das fronteiras. Livre circulação de pessoas e bens. Ocupados sem resistência e sem dor. Anestesiados previamente pelos invasores e seus cúmplices, somos agora oficialmente europeus de primeira, espanhóis de segunda e portugueses de terceira” (Diário, Coimbra, 2 de Janeiro de 1992).

    
É esta realidade que nos faz definir Miguel Torga como o indisfarçável protótipo do cidadão português de sempre. É por isso que podemos afirmar que o poeta é o seu país antropomorfizado, que a sua voz é a voz de Portugal, que Torga é um poeta em quem Portugal se diz, que o poeta é a consciência da pátria.



publicado por 5estrailes às 15:51

link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Abril 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Representantes do Distrit...

. Processo de Miguel Torga

. Remate

. A Derradeira Viagem

. O Negrilho:O outro poeta ...

. Testemunho do Presidente ...

. Reportagem

. Reino Maravilhoso

. Poeta secular

. S.Leonardo de Galafura

. O problema religioso

. A defesa da liberdade e a...

. O humanismo torguiano

. Um Portugal ibérico e uni...

. Torga, Portugal antropomo...

. O telurismo torguiano e a...

. Diário

. Apresentação da nossa esc...

. Apresentação

. Bibliografia

. Livros publicados e prémi...

. Biografia

. Abertura

.arquivos

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

.links

.Visitas

Overseas Money Transfer
Overseas Money Transfer

.Poemas

blogs SAPO

.subscrever feeds