Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Um Portugal ibérico e universal

“A minha pátria cívica acaba em Barca de Alva; mas a minha pátria telúrica só finda nos Pirinéus. Há no meu peito angústias que necessitam da aridez de Castela, da tenacidade vasca, dos perfumes do Levante e do luar andaluz. Sou, pela graça da vida, peninsular. Ardo no fogo desta fé que nos devora, exalto-me nas ambições desmedidas dos nossos maiores, e afundo-me dentro de uma invencível armada de quimera” (Diário, Coimbra, 14 de Novembro de 1985).

O Portugal de Torga é o Portugal ibérico e universal. Escreve Torga: “Sou um português hispânico. Nasci numa aldeia transmontana, mas respiro todo o ar peninsular. Cioso da minha pátria cívica, da sua independência, da sua História, da sua singularidade cultural, gosto, contudo, de me sentir galego, castelhano, andaluz, catalão, asturiano ou vasconço nas horas complementares do instinto e da mente. E, como à dura condição de existir junto a de escrever, muito papel tenho lavrado a contar as emoções desse convívio físico e espiritual sem fronteiras” (Diário, Coimbra, 11 de Novembro de 1985).
 
O seu Portugal não se confina à pátria telúrica, mas é Portugal alargado à lusofonia, uma diáspora de comunidades falantes e escreventes na pátria pessoana. Os povos unidos pelo cordão umbilical da expressão são, para Torga, portugueses heterónimos, ou melhor, maneiras heterónimas de se ser português. O seu Portugal é um Portugal sem localismos, universal. Torga é o mais lídimo corifeu do espírito de fidelidade às origens, esse modo específico de ser no mundo sem trair a raiz e de ser tanto mais universal quanto mais coerente e profundamente identificado com o particular: “O universal é o local sem paredes. É o autêntico que pode ser visto de todos os lados, e em todos os lados está certo, como a verdade” (Traço de União, p. 69).
 
A sua obra, arraigada num espaço cultural português, projecta-se num horizonte de universalidade: é através de uma apaixonada consciência do seu país natal que Torga nos ensina a procurar a verdade universal da nossa habitação humana do terreste: “o mundo é uma realidade universal desarticulada em biliões de realidades individuais” (Diário, Paris, 11 de Janeiro de 1938).). Nesta acepção, podemos falar em Miguel Torga da sua condição singular de Português Universal e caracterizar o seu drama como o drama de Trás-os-Montes alargado até aos confins da alma e do mundo.
publicado por 5estrailes às 16:00

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