Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

O humanismo torguiano

“O homem continua a ser a minha grande aposta. Sem acreditar nele, como poderia acreditar em mim?” (Diário, Lisboa, 23 de Novembro de 1982)
 

Dentro deste panorama geográfico, que é a pátria, mantém-se fiel à sua condição de homem simples, de homem do povo, de “filho, neto, bisneto e tetraneto de obscuros cavadores, carreeiros e almocreves que séculos a fio saibraram, sulcaram e palmilharam as encostas do Doiro” (Diário, Régua, 19 de Agosto de 1979), ele que foi, além disso, “criado a ouvir a crónica deles e a de quantos os acompanhavam na via sacra e Deus sabe até que ponto ela era dolorosa” (Diário, Régua, 19 de Agosto de 1979).

A Comunhão com as suas gentes, marco geodésico da obra do poeta nascido no Marão, é epifania da sua Comunhão com toda a humanidade nos altares da vida. A comunhão com o semelhante, sobretudo o povo simples, porque autêntico, dita a Torga o seu ideal humanista.

O desespero humanista lança as suas raízes na constante procura do verdadeiro sentido da existência humana, que não consegue atingir na sua plenitude, o que o mergulha na angústia. Torga anela dissecar os mistérios do ser e da vida pelo bisturi da introspecção, um mistério que insondavelmente nos define e nenhuma anábase ao cerne da interioridade, por mais lúcida, paulatina, sincera e profunda, consegue aclarar. Como humanista, Torga manifesta a sua preocupação com o ser humano, as suas limitações e a sua necessidade de transcendência. Vive inquieto com a vida humana, a existência, o destino, o sentido da morte, a condição terrena. Representado sob a forma de protesto, de revolta e de inconformismo, são a liberdade e a esperança os valores que articulam o seu humanismo.

Torga projecta, na sua escrita, as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e as suas necessidades de transcendência. Revela, na letra rasgada burilada a cinzel por este “pedreiro teimoso” (Diário, S. Martinho de Anta, 6 de Abril de 1955), a história particular que os nossos passos vão deixando gravados nas páginas invisíveis do tempo. Evidencia um certo sofrimento magoado, feito desassossego, que fazem de Torga uma corda de viola esticada entre dois extremos: o sofrimento e a esperança. A esperança e a desesperança surgem como expressão de um conflito íntimo que se desenvolve no interior do Poeta. Torga é um “sinaleiro da esperança” (Diário, Ponta Delgada, 10 de Junho de 1989) mas, concomitantemente, “amarrado à cruz do sofrimento” (Diário, Coimbra, 10 de Fevereiro de 1984). Nos seus poemas, escandidos de uma beleza seivosa, ainda que quando repassados de tristura, bate uma luz vesperal de indecisão entre a esperança e o desespero. A vida, com as suas circunstâncias, anemia progressivamente as pétalas da esperança, mergulhando o homem nas águas inóspitas do desespero. Urge “semear ao menos o penisco da esperança no chão actual” (Diário, Coimbra, 31 de Maio de 1958) e, ainda que os frutos sejam serôdios, é já uma promessa de salvação.

“Homem do humano” (Diário, Pisa, 6 de Setembro de 1970), a sua palavra é a sístole ou a diástole de um coração que nunca deixou de bater humanamente.

O homem, que na prospecção aos mares incógnitos do humano, descobre como mistério. Um mistério indeclinável, oculto, impenetrável, opaco a todas as luzes. Um mistério que é pessoal, envolvente, mas que o revela no mais profundo de si. Mistério este que é permanente e que foge a todas as regras e medidas: “Não encontrei resposta para nenhuma das perguntas inquietantes que em momento algum deixou de me fazer a voz atormentada da alma” (Diário, Nazaré, 12 de Agosto de 1969).


Face a esta inquietação, que resulta da questão fundamental, parece levantar-se a questão da opção do sentido. O sentido que está, como afirma Torga nas palavras dos oitenta e quatro anos, na “graça desta comunhão humana, sem a qual a passagem pelo mundo não teria sentido” (Diário, Coimbra, 12 de Agosto de 1991).

O homem depende da comunhão com o seu semelhente. Só quando convivemos com os outros é que somos nós em realidade: “Afinal - escreve Miguel Torga -, dependo, como humano, da comunhão com a humanidade dos outros (...). Só quando convivo, em pensamento, palavras e obras, vivo e sou realmente eu” (Diário, Coimbra, 20 de Outubro de 1984).

É no desespero que o homem sente mais agoniadamente a necessidade desta relação com o semelhante, a necessidade de “sentir as pancadas do coração sincronizadas com as doutros corações” (Diário, Miramar, 25 de Julho de 1961), numa tentativa de mitigar a dor: “Era um parceiro de vida que eu precisava agora, oco tambor que fosse, com o qual acertasse o passo da inquietação” (Diário, Miramar, 25 de Julho de 1961). De facto, até a Bíblia, “o livro dos livros, nos ensina que não há homem sem homem, e que o próprio Cristo teve, a caminho do Calvário, a fortuna dum Cireneu para o aliviar do peso da cruz” (Diário, Malaposta, 12 de Agosto de 1987)

A comunhão é definida por Torga como a (con)vivência tolerante, livre e fraterna do género humano. É nesta acepção que Torga faz a apologia de todas as suas meditações e de toda a sua obra, “ter pensado sempre em termos de livre comunhão e desinteressada fraternidade o mundo redondo” (Diário, Estoril, 8 de Junho de 1992). O amor torna-se, destarte, no garante da liberdade: “Só na reciprocidade do amor a liberdade encontra a sua expressão verdadeira” (Diário, Coimbra, 9 de Julho de 1985).

      Torga, poeta e homem livre – “poucos devem ter tido no mundo a minha sorte: ser um homem inteiramente livre?” (Diário, Coimbra, 20 de Maio de 1947), é o estreme corifeu da liberdade, não uma liberdade decretada, mas uma liberdade dom, intrínseca à própria identidade da pessoa: “Ser livre é um imperativo que não passa pela definição de nenhum estatuto. Não é um dote, é um dom” (Diário, Coimbra, 5 de Dezembro de 1973).

publicado por 5estrailes às 16:02

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